BRASIL - Revista Crescer - Jan/08
A Kanguruh participou da matéria de capa da Revista Crescer de janeiro de 2008.
Sorria, seu filho está sendo filmado
Novas tecnologias, preços acessíveis: há câmeras nos olhando por toda parte e podemos usá-las como proteção também quando o assunto é cuidar dos filhos. Mas será que isso é mesmo o melhor para eles?
'Ai, eu queria ser uma mosquinha para ver...' Fale a verdade: você já não se pegou pensando isso em algum momento em que o filho saiu de vista, principalmente na fase em que ele era um bebê, sem falar e sem recursos para se defender ou contar o que aconteceu com ele, mesmo que fosse algo muito bom? Quem não desejou ser onipresente na vida da criança, com a possibilidade de acompanhar todo o desenvolvimento dela, saber como está se divertindo ou protegê-la de grandes males, esteja ela em casa com a babá ou na escola escolhida a dedo? A tecnologia chegou para 'solucionar' também este problema. Não, isto não é um informe publicitário. Falamos aqui das câmeras, às vezes chamadas de segurança, às vezes apenas um acessório de computador. O fato é que elas - e seus tamanhos variados - estão em nosso cotidiano e podem ser uma ferramenta importante para a proteção das crianças no mundo de hoje. Mas, como muitas ferramentas, pode ser usada para fazer coisas boas e outras nem tão positivas assim.
Quando voltam da licença-maternidade, muitas mães optam por deixar os filhos com babás. As razões para essa escolha são muitas, desde o valor, mais baixo que o da maioria dos berçários, até o conforto da criança, que pode ficar na própria casa. Com as vantagens, vêm também os medos: e se a babá maltratar a criança? As notícias correm: profissionais que espancam crianças e misturam ingredientes impróprios à alimentação dos bebês. 'A babá significa o mundo de fora sendo trazido para dentro de casa', diz Eduardo Ferreira-Santos, psiquiatra do Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde trabalha com vítimas de violência urbana que desenvolvem o transtorno de estresse pós-traumático. Para ele, mesmo quem nunca passou por uma situação de violência sofre com a ansiedade. Não se trata de paranóia. A sociedade está, realmente, mais perigosa. 'A gente se coloca no lugar da pessoa que foi vítima da violência e essa ansiedade leva as pessoas a tomarem medidas para tentar controlar ao máximo essas situações, seja com carro blindado, com celular ou com câmera', afirma.
É por causa do medo do que pode acontecer com a criança em sua ausência que muitos pais e mães resolvem colocar uma câmera em casa. Thiago Títero, dono da Títero Segurança Eletrônica, conta que instala cerca de dez a 20 câmeras por mês em residências com crianças pequenas. No total, já colocou cerca de 2 mil delas. 'Na maioria das vezes, os pais me procuram para se certificar da conduta da babá, ainda que confiem nela, porque ouviram histórias de maus-tratos', diz.
Contar ou não contar?
Segundo a advogada Tânia da Silva Pereira, presidente da Comissão da Infância e Juventude do Instituto Brasileiro de Direito da Família (IBDFam), ter câmera em casa é um direito dos pais e não representa uma violação da privacidade da babá. 'Desde que o aparelho não esteja instalado no quarto da funcionária', afirma. A câmera foi a alternativa escolhida pela analista de sistemas Gislaine Ferreira Lima Verri. Quando sua filha completou 6 meses, ela voltou a trabalhar e sentiu pena de deixar a menina na escola. 'Contratei uma babá e instalei câmeras em todos os lugares da casa. Se eu, que sou mãe, perco a paciência, imagine uma estranha!', diz. A moça que cuida do filho de Gislaine sabe que está sendo monitorada. A mãe acha melhor assim. 'Prefiro prevenir a ver minha filha sendo agredida', diz ela, que deixa o programa aberto o dia todo e o assiste pela internet. Se a filha mexe em algo perigoso na sala e a babá está na cozinha, Gislaine liga para avisar.
Para Eduardo Ferreira-Santos, o comportamento mais ético seria mesmo avisar a babá. Isso, de fato, poderia prevenir alguma agressão. 'Ninguém bota câmera em prédio para pegar ladrão distraído', diz ele. As câmeras são colocadas bem à vista justamente para evitar o roubo. Algumas mães temem, porém, que se a funcionária souber da câmera, poderá ser dissimulada, ou seja, tratar a criança bem na frente do dispositivo e mal longe dele.
E a confiança, onde fica?
Isso levanta ainda outra questão. Será possível manter uma relação amigável com a babá quando ela está sendo vigiada por câmeras? Doris Barg, proprietária da loja especializada em mães Mammy To Be, que também oferece cursos e agenciamento de babás, acredita que não. 'A câmera implica dúvida', diz ela. A babá pode se sentir passada para trás, achar que a família não confia nela e se ressentir. Em sua opinião, o melhor mesmo é tomar precauções na hora de escolher. 'O mais importante é a integração dela na família', afirma. 'E não dá para fazer isso sem confiança.'
Roberta Rizzo, proprietária da Kanguruh, franquia especializada em treinamento e agenciamento de babás, discorda. 'Não existe maior garantia que a prevenção', afirma. Ela orienta os pais que escolhem profissionais de sua agência a utilizarem a câmera. Faz parte também de sua orientação que os pais contem às funcionárias sobre a existência do mecanismo. Porém, dos cerca de 80% dos clientes que têm o aparelho, só 30% contaram às babás.
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Berçário filmado
Os berçários, por exemplo, também foram invadidos pelo aparelho. Um dos pioneiros dessa tendência no Brasil foi o Colégio Magno/Mágico de Oz, que, ao abrir as portas, 13 anos atrás, ofereceu de pronto aos pais um serviço inédito: eles poderiam acompanhar algumas partes do dia do bebê na escola pela internet, fosse do trabalho, de casa, de uma viagem. E mais: poderiam estender o benefício - por meio de uma senha - aos avôs, avós e outros parentes que morassem longe ou simplesmente quisessem tanto quanto eles acompanhar os primeiros 'passos' do bebê. 'Já senti a demanda naquela época, pois os pais queriam estar perto dos filhos e ficavam tranqüilos por verem a criança bem', diz Claudia Tricate, diretora do colégio.
Até hoje o benefício continua firme. Uma câmera fica o tempo todo ligada na sala de estimulação do berçário e, no caso dos mais velhos, algumas atividades especiais são transmitidas aos pais pela web. A escola passa uma circular e avisa o que será transmitido. 'Nossas câmeras não são de segurança, mas de acompanhamento', afirma Claudia. 'É para eles acompanharem o desenvolvimento dos filhos.' A escola já foi surpreendida com telefonemas ansiosos como 'mas é ele que está chorando?'. Ou emocionantes como 'eu vi ele dando um passinho!'.
Em 2005, com um boom de vendas de webcams e afins, muitas escolas passaram a oferecer o serviço, uma ótima estratégia na luta por um diferencial no mercado. Algumas empresas enxergaram o filão na hora e investiram em um serviço especializado. A Cameraweb, por exemplo, mantém o site Patiovirtual e com ele atende a 30 colégios paulistanos. 'Os acessos são mais freqüentes durante a primeira semana do aluno, no período de adaptação', afirma Eduardo Miamoto, gerente da empresa.
A câmera foi um ponto importante para a gerente de projetos em telecomunicação Débora Garcia na hora de procurar a escola para o filho Vinícius, de 9 meses. Ela costuma vê-lo pela internet duas vezes por dia, o que a deixa mais tranqüila. 'Vi as primeiras engatinhadas pela webcam', conta. Débora já ligou na escola uma vez, para reclamar que o filho chorava na hora de dormir. Mas o colégio explicou que a rotina era necessária e ela acabou por concordar. 'Com as câmeras, vejo que a escola não tem nada a esconder', afirma.
O corretor de seguros José Flávio Bernardini, pai de Isabela, de 2 anos, também é fã do benefício. 'Assim consigo monitorar o aprendizado dela, ver se está interagindo com os colegas' diz ele, que não considera o ato como sendo de vigilância, mas sim de acompanhamento da rotina.
No Colégio Itatiaia, em São Paulo, existem câmeras há quatro anos e em pontos estratégicos, como o parque, a sala de estimulação e a piscina de bolinhas. 'No princípio, algumas mães ligavam querendo controlar a rotina da criança. Hoje, os telefonemas que recebemos são para virar o rosto do bebê para a câmera', afirma Cláudia Venelli, coordenadora pedagógica. As câmeras em uma escola vão além disso. No Colégio Ciman, em Brasília, as câmeras estão presentes há cinco anos. São 140 unidades espalhadas pelo colégio, inclusive em sala de aula. Ou seja, estão lá para muito além da curiosidade de alguns pais. 'Servem para nosso controle e para inibir vandalismo ou cola', diz Atef Aissami, diretor da escola. Segundo ele, passado o estranhamento (houve dificuldades de adaptação inicialmente, pois os professores se sentiam vigiados) todo mundo gostou. Os pais têm acesso às áreas de recreação, como parquinho, pátios e quadras.
Diálogo com os filhos
A psicóloga Andréa Morais quer distância das câmeras, e não só como especialista. Ela tem filhos na Escola Parque, no Rio de Janeiro, que nunca instalou câmeras. Hoje as crianças têm 9 e 13 anos, e ela reafirma sua certeza. 'Não vejo como isso ajudaria na educação. A relação de aprendizagem requer confiança', diz. Como toda mãe, Andréa se sente insegura muitas vezes, mas acredita que deve resolver isso sozinha. 'Também não é legal usar a gravação como forma de aliviar a culpa por não acompanhar o crescimento do filho. A relação é unilateral: você mata a saudade, ela não.' E isso, para ela, é apenas parte do problema. 'As imagens tolhem a narrativa. O filho não precisa contar o que houve no dia, pois você já sabe tudo', diz. Patrícia Konder Lins, diretora da Escola Parque, onde estudam os filhos de Andréa, concorda. 'Se os pais souberem tudo o que a criança faz na escola, não haverá diálogo.'
E diálogo conta muito em qualquer relação. Anna Marianno, coordenadora pedagógica de educação infantil da Escola Viva, de São Paulo, diz que escola é um lugar em as crianças constroem sua história com seus colegas, professores etc. A comunicação com os pais é feita de outra forma, com reuniões, na entrada e na saída, por meio de trabalhos apresentados, atividades especiais. 'A criança tem de ter autonomia para não dizer aos pais o que se passa na escola, se não quiser ', diz Anna Marianno. Ela pede atenção ao fato de que um dispositivo pode dar apenas um lado da história. 'É apenas um recorte da situação.'
No consultório da psicopedagoga Raquel Caruso, não são poucos os casos de abuso de poder dentro das escolas. Há professor que rasga trabalho de aluno em sala de aula ou funcionário que come lanche levado de casa pela criança. São situações assim que justificam esse tipo de recurso de proteção. Dar uma espiadinha, matar a saudade ou vencer a curiosidade de saber que mundo novo é esse do filho é compreensível, claro. 'Mas se é para vigiar, é melhor repensar a escola. Por isso, em qualquer uma das duas situações, precisa haver muita conversa entre pais e instituição', afirma.
Autonomia, liberdade, discernimento são outras palavras a entrarem neste complicado assunto. Como é que ensinaremos isso às crianças se estivermos o tempo todo evitando os males da vida? Por outro lado, como é possível deixar o filho passar um aperto sem intervir? É difícil, mesmo, saber até que ponto proteger os pequenos. 'Algumas pessoas querem atingir uma situação impossível de segurança absoluta', afirma Eduardo Ferreira-Santos. Não dá para exagerar e viver na ansiedade extrema. É bom evitar os riscos, mas não se pode viver em função deles. Como tudo na vida, o uso da câmera é uma questão de bom senso e de bom uso. Se você presta mais atenção às ações da babá que aos sentimentos do seu filho, talvez seja hora de rever as prioridades. Até porque não dá para filmar a criança o tempo todo.
Seja qual for sua escolha, com câmera ou sem, o que nunca pode acontecer é deixar de observar seu filho. Olhar atentamente suas reações, como ele se comporta com as pessoas, se ele se sente intimidado ou à vontade na presença da babá, da professora, dos colegas de classe. Nenhuma câmera substitui esse olhar cuidadoso, de carinho.